Douglas Cazaroti
Química e ambiente8 min de leitura

Pesticidas: estão nos alimentando com veneno!

O uso intensivo de agrotóxicos no Brasil, tem levantado questões relevantes sobre o impacto destes produtos no meio ambiente e na saúde…

Por Robson Correa

O uso intensivo de agrotóxicos no Brasil, tem levantado questões relevantes sobre o impacto destes produtos no meio ambiente e na saúde pública.

O atual governo federal, em 5 meses de gestão, absurdamente já aprovou o uso e a manipulação de 169 defensivos agrícolas no território nacional, agindo na contra-mão da tendência mundial de redução do uso destes compostos de alta toxidade, na produção de alimentos.

Não é preciso ter muito conhecimento técnico sobre o assunto, para saber que utilizar veneno em produtos que vão parar na mesa de seres humanos, não é, e nunca vai ser, uma boa ideia (pelo menos, para quem os consome).

Estudos recentes, demonstraram que nas grandes cidades estadunidenses, todos os cidadãos testados, apresentaram em suas amostras de urina, traços detectáveis de 14 tipos diferentes de pesticidas.

De acordo com esta pesquisa, desenvolvida pela Universidade de Berkeley, trata-se de um problema de saúde pública que já alcança os níveis de uma epidemia.

Aqui no Brasil não deve ser diferente, ou até PIOR, tendo em vista a permissividade de nossas leis para o uso indiscriminado de pesticidas pelos produtores rurais em suas lavouras.

Mas não somente a alimentação está contaminada por estes produtos, já se tem pesquisas à respeito de consideráveis índices de contaminação por pesticidas nas águas tratadas distribuídas pelos grandes centros.

Também devemos consideram que a aplicação de pesticidas, nas grandes lavouras, espalham estas moléculas tóxicas por grandes extensões de terra, contaminado o solo, animais, recursos hídricos e até na atmosfera, uma vez que, quando pulverizados, uma boa parte destes permanece em suspensão no ar.

Mas o que são estes pesticidas?

Pesticidas, Agrotóxicos, Defensivos Agrícolas e até mesmo "Veneno", são alguns dos diversos nomes utilizados para designar estas espécies de produtos químicos.

Tratam-se de compostos orgânicos criados para controlar e/ou exterminar as pragas que naturalmente comprometem o rendimento da produção agrícola.

Ou seja, o nome "pesticida" (ou qualquer outra denominação para o mesma função), designa um conjunto de compostos diferentes, cuja função é evitar ataques naturais às produções agrícolas, evitando assim a sua deterioração tanto de quantidade quanto de qualidade, uma vez que, o papel de "pesticida" pode ser desempenhado seja por uma substância química ou seja por um agente biológico (bactéria, vírus).

Existem diversos tipos de padrão de classificação para os pesticidas, porém, a mais comum delas, é dada de acordo com a praga a ser combatida, sendo assim:

  1. Bactericidas - usados no controle de bactérias;

  2. Inseticidas - usados no controle de insetos;

  3. Herbicidas - usados no controle de ervas daninhas;

  4. Fungicidas - usados no controle de fungos;

  5. Acaricidas - usados no controle de ácaros.

Impactos na saúde e no meio ambiente

Pesticidas quando utilizados excessivamente, estimulam mutações na praga atacada, fazendo com que estas criem cada vez mais resistência a esses compostos, o que leva à necessidade de usar doses cada vez maiores à cada aplicação, ou trocar para outros produtos que possuam maior toxidade.

A própria planta que supostamente seria "protegida" pelo uso do pesticida, também sofre impactos ao entrar em contato com este, já que isso afeta sua estrutura física, bem como também o seu metabolismo.

Os pesticidas que caem no solo das lavouras, se infiltram pelos seus poros e contaminam os lençóis freáticos, são varridos pelas chuvas e pela erosão e contaminam rios, córregos, lagos e, eventualmente, oceanos, afetando os seres que vivem nesses locais, provocando mutações ou, até mesmo, os levando a morte por envenenamento ou intoxicação.

Os vegetais tratados com pesticidas, absorvem suas moléculas, portanto, quando chegam até o consumidor, se transformam em um "cavalo de tróia", que carrega estas moléculas para o interior do organismo dos seres humanos que os consome (ou seja, "lavar" os vegetais, não possui muita eficácia para a eliminação dos pesticidas).

As principais vias de penetração no corpo do ser humano, em ordem crescente, são: por ingestão, pela respiração e por absorção dérmica.

Um dos principais danos causados por pesticidas á saúde humana é a mutação dos genes das células, o que posteriormente desencadeia o câncer em várias partes do corpo.

De acordo com o recente estudo publicado na revista médica Environmental Health Perspectives pela Universidade da Califórnia, grávidas que vivem perto de fazendas ou plantações que fazem uso de pesticida têm até 66% mais probabilidade de ter um filho autista, ou seja, bebês expostos, ainda no útero materno, a maiores níveis de pesticida correm um risco maior de ter autismo.

Em outro estudo, publicado na revista Scientific Reports pela Universidade e Dresden, expõe que a exposição crônica a pesticidas e o desenvolvimento do Parkinson estão relacionados. Segundo o estudo, os pesticidas conseguiram alterar, dentro do intestino de cobaias, o funcionamento de uma proteína envolvida no início e na propagação da doença.

Os pesticidas são apontados como uma das principais causas da extinção de algumas espécies de insetos, que impacta diretamente o equilíbrio ecológico, uma vez que cai a oferta de comida para os animais insetívoros, o que os leva a desnutrição e ao óbito, levando esta devastação até o topo da cadeia alimentar, uma vez que os predadores que se alimentam destes animais insetívoros também se impactam negativamente pela diminuição de oferta de alimentos.

Também são responsáveis pelo desaparecimento das abelhas, o que impacta diretamente a produção de alimentos, uma vez que estas desempenha a importante função de polinização das culturas. A União Europeia, alarmada por esta perspectiva, baniu o uso dos pesticidas denominados "neonicotinoides" a partir de julho de 2013.

(Sobre esta assunto, leia o nosso artigo denominado "O Holocausto das Abelhas")- (colocar o link)

Liberação do uso indiscriminado de pesticidas no Brasil

A partir do governo Temer, nunca foi tão rápido registar um agrotóxico no Brasil, segundo dados do próprio Ministério da Agricultura.

A quantidade de pesticidas registrados vem aumentando significativamente nos últimos 3 anos, em 2017, houve um total de 137 aprovações; e em 2018, saltou para 448 aprovações.

Já em 2019, o salto é ainda mais significativo – até 14 maio, ou seja, em apenas 5 meses de governo da nova gestão, já foram aprovados 169 produtos (uma impressionante média de 1,5 aprovações por dia), o que, de longe já supera a marca do ano de 2017 inteiro, e, ao se manter este ritmo, também baterá, fácil, o recorde do ano de 2018.

Destes 169 produtos aprovados ainda em maio de 2019, 81 pesticidas são classificados como alta ou extremamente tóxicos; 42 pesticidas, dos aprovados pelo governo neste ano, são terminantemente proibidos na União Europeia.

Ou seja, isto somente evidencia o compromisso que o governo Bolsonaro assumiu com a bancada ruralista, permitindo que estes, em nome do lucro, levem veneno até a mesa do cidadão brasileiro.

Ou seja, o Brasil acabou se transformando em um mercado para as empresas venderem seus estoques encalhados de agrotóxicos que são proibidos em outros países.

E, o agronegócio só pensa no LUCRO, não se importando com a devastação que este seu ato nefasto de entupir as lavouras com veneno causa à saúde pública.

Contaminação das águas

Recentemente, a mídia foi surpreendida com a funesta notícia que os estados de São Paulo, e do Rio de Janeiro e cerca de 1.300 municípios brasileiro, encontraram pesticidas na água tratada distribuída por suas redes de abastecimento.

Uma mistura de diferentes agrotóxicos foi encontrada na água abastecida de 1 em cada 4 municípios brasileiros entre 2014 e 2017.

Essa mistura contém todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar, destes, 16 pesticidas são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 pesticidas estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como disfunções hormonais, malformação fetal, disfunções reprodutivas e, até mesmo câncer.

Estes estudos foram promovidos pelo Ministério da Saúde e foram realizados em conjunto pela agência pública Repórter Brasil e a organização suíça Public Eye, com base no tratamento das informações prestadas pelo Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne e centraliza os resultados dos testes feitos pelas empresas de abastecimento.

Estes números revelam que a contaminação das águas está aumentando a passos largos e constantes, conforme o uso de agrotóxicos se potencializam no país, devido às políticas permissivas do governo federal.

Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma compreensível, de forma a deixar a população completamente desinformada sobre os riscos que corre ao beber um simples copo de água.

Prevenção

O principal tipo de prevenção, passa pela reeducação alimentar e pela mudança de consciência tanto política quanto ecológica.

Procure saber onde ficam as feiras ecológicas e/ou orgânicas da sua cidade, e dê preferência para os produtos comercializados nestes locais, tomando cuidado de verificar se o vendedor possui a certificação de "produto orgânico" e que este produto seja oriundo de pequeno produtor rural e/ou de cultura familiar.

No que toca ao abastecimento de água, o esforço de prevenção deve ser na modificação da política nacional de liberação e uso dos pesticidas, uma vez que o sistema de tratamento de água convencional, não é capaz de remover os agrotóxicos da água em tratamento.

Pressione governantes e parlamentares para:

  1. Criarem uma regulamentação mais rigorosa sobre a fabricação, comercialização e uso dos pesticidas, no sentido de reduzir o seu uso;

  2. Fomentar, patrocinar e estimular, nos centros de pesquisa das universidades públicas, a criação de projetos de pesquisa visando o desenvolvimento de alternativas mais saudáveis aos defensivos agrícolas tóxicos;

  3. Estimular os pequenos produtores rurais a produzir cada vez mais alimentos orgânicos, criando linhas de crédito especiais de incentivo, exclusivas para aqueles que seguirem esta linha;

  4. intensificar a fiscalização na venda e na aplicação dos pesticidas, assim como no recolhimento das embalagens vazias dos pesticidas por meio de seus fabricantes;

  5. Aprovar no Congresso Nacional, o Projeto de Lei 6.670/2016, denominado: Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA), que determina propostas para uma agricultura mais saudável, tanto para o produtor, quanto para o consumidor final.

(assine a petição digital da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA), no link: https://chegadeagrotoxicos.org.br/?utmsource=referral&utmmedium=p4&utmcampaign=chega-de-agrotoxicos&utmcontent=p4btnprimary)