Douglas Cazaroti
Química e ambiente6 min de leitura

O impacto do uso doméstico dos detergentes no meio ambiente

A importância do papel do detergente como produto de limpeza, na atualidade, é indiscutível, sua eficiência como removedor de gorduras permite uma enorme economia de tempo na limpeza de pratos, talheres e…

Por Robson Correa

A importância do papel do detergente como produto de limpeza, na atualidade, é indiscutível, sua eficiência como removedor de gorduras permite uma enorme economia de tempo na limpeza de pratos, talheres e panelas.

Entretanto, o impacto ambiental causado por esses contaminantes deve ser avaliado de forma criteriosa.

Diariamente, grandes quantidades de detergentes vem sendo despejadas nos sistemas de esgotos, e, tendo em vista que, muitas cidades brasileiras não fazem o tratamento adequado de seu sistema de captação de esgoto, como consequência, estes detergentes acabam chegando nos corpos hidrídicos contaminando rios, córregos, lagos e oceanos.

Composição química

Detergentes, são compostos conhecidos como tensoativos, suas moléculas tem estrutura anfifílica, ou seja, estas possuem duas regiões, uma hidrofílica (que se liga a água) e uma hidrofóbica (que repele a água).

Tensoativos aniônicos são aqueles cuja sua parte polar (hidrofílica) possui carga negativa, estes são usados como detergente, devido sua alta eficácia em destruir a tensão superficial das moléculas de água, enquanto a parte apolar (hidrofóbia) se adere a oleosidade encontrada na superfície, formando uma emulsão que é carreada pela água, já sem a resistência de sua tensão superficial.

Entende-se por tensão superficial da água, o fenômeno em que as moléculas da superfície da água, por não existirem outras moléculas acima destas, realizam ligações de hidrogênio apenas com as moléculas ao seu lado e abaixo. Essa desigualdade de atrações na superfície cria uma força sobre essas moléculas e provoca a contração do líquido, causando a chamada tensão superficial, que funciona como se fosse uma fina membrana elástica na superfície da água.

As partes polares dos tensoativos aderem as moléculas da superfície da água, quebrando as ligações de hidrogênio que as mantém coesas, desmontando, desta forma, a película de tensão superficial, permitindo uma maior fluidez da água.

Atualmente, o tensoativo aniônico mais utilizado na indústria é o alquilbenzeno sulfonato linear, também conhecido pela sigla LAS.

Uso no brasil

O Brasil produz cerca de 300 mil toneladas de detergente por ano, o que representa cerca de 10% da produção mundial e a quase a metade das vendas deste mesmo produto em toda a América Latina.

No país, soma-se e este consumo expressivo de detergentes a falta de tratamento de esgoto doméstico nas regiões urbanas, combinação que tem causado efeitos ambientais indesejáveis.

Mesmo o Brasil possuindo uma legislação que, desde 1985 proíbe a venda e a fabricação de detergentes que não sejam biodegradáveis, existem diversas controvérsias à respeito do impacto que esse produto causa nos ecossistemas aquáticos.

O detergente no meio ambiente

Num primeiro momento, o impacto mais marcante, visualmente, da poluição por detergentes no meio ambiente é a formação de espumas nas águas dos rios (que causa a dispersão de poluentes através dos ventos, espalhando produtos tóxicos por grandes distâncias), o que vem alcançando níveis críticos no Rio Tietê, em São Paulo, por exemplo.

As espumas no meio ambiente ocorrem quando, a superfície das águas se encontram tomadas por uma solução de tensoativos, e, devido a agitação das águas por correntezas, quedas, ventos ou processos mecânicos, ocorre a sua aeração, ou seja, o ar atmosférico entra nesta solução e fica encarcerado por uma película de tensoativos, formando bolhas.

Mais recentemente, pesquisas realizadas sobre a qualidade das águas de córregos, rios, lagos e oceanos no país, detectaram diversos outros impactos causados pelos detergentes como: o impedimento da aeração do lodo de fundo (o que impede a floculação do material particulado mais pesado e o seu processo normal de decantação); a perda de oxigenação das águas (ocorre devido a quebra da tensão superficial da água, o que facilita a perda gasosa para a superfície, e impede a entrada do oxigênio atmosférico na água - fenômeno o que acarreta morte da vida aquática); e, o aumento dos níveis de fosfatos na água (o que favorece a multiplicação de algas vermelhas, que em excesso também prejudicam a oxigenação da água).

A biodegradação do LAS ocorre devido à atividade metabólica de certos microorganismos encontrados na natureza, porém, diversos outros fatores interferem na sua biodegradabilidade, dentre eles: quantidade excessiva de LAS descartado; a concentração de oxigênio dissolvido na água; interação com tensoativos catiônicos (aqueles cuja parte polar {hidrofílica}, é carregada positivamente) provenientes de outros produtos de limpeza descartados; formação de sais insolúveis de cálcio e magnésio; presença de outros nutrientes orgânicos e variação do pH durante o processo de biodegradação.

E, não para por aí, a legislação que obriga que os detergentes sejam biodegradáveis, não prevê (muito menos proíbe) a adição outros ingredientes ao detergente biodegradável comercializado (que podem chegar a até, incríveis, 80% da composição total do produto).

Estes aditivos, além de não serem biodegradáveis, alguns deles, ainda são tóxicos para a vida aquática.

Dentre estes aditivos podemos encontrar: conservantes, corantes, antioxidantes, micropartículas plásticas, anti-sépticos, fungicidas (estes dois últimos destroem a fauna microbiana aquática), e substâncias a base de cloro (que contêm estabilizadores e outras substâncias muito prejudiciais como o mercúrio e outros metais pesados - estes, têm capacidade cumulativa na cadeia alimentar, o que, além de afetar a fauna e a flora, ainda tem o potencial de intoxicar os seres humanos quando consomem estes frutos do mar contaminados).

Outro importante fator poluente, e que interfere na biodegradabilidade dos detergentes, são as reações químicas que ocorrem na natureza quando o detergente encontra outras substâncias que compõem os inúmeros descartes, dos produtos que

se utilizam usualmente em todas as residências: sabonetes, shampoos, cremes dentais, sabão em pó, amaciantes, desinfetantes, limpadores de vidros, água sanitária, amoníaco, hormônios e medicamentos excretados, e etc.

Esta gama de combinações potencializam a poluição das águas, a contaminação da fauna e flora dos ecossistemas, impactando, inclusive, diretamente sobre a potabilidade para o consumo humano destas águas.

Limpeza sustentável

Atualmente, é possível encontrar alternativas menos poluente que exercem a mesma função dos detergentes, mas não agridem o meio ambiente

A saída para uma limpeza sustentável da casa, é a substituição dos produtos de limpeza sintéticos por produtos naturais ou ecológicos, aqueles que se decompõem com maior facilidade na natureza, evitando a contaminação do meio ambiente.

Além de adotar produtos ecológicos, você também pode:

  • Usar vassouras, aspiradores e panos, para diminuir o uso do produto de limpeza;

  • Preferir utilizar panos de algodão, ao invés de toalhas descartáveis;

  • Ler os rótulos dos produtos e excluir aqueles que possuem cloro, solventes e formaldeído em sua composição;

  • Comprar produtos que tenham selo de certificação ecológica;

  • Não comprar produtos que não possuam embalagem própria ou rótulo que descreva sua composição química e indique o fabricante e o seu responsável técnico;

  • Buscar alternativas naturais para a limpeza, utilizando produtos caseiros como: Vinagre, Bicarbonato de Sódio, sal e suco de limão;

  • Adotar o hábito de usar água quente para desinfetar ambientes, roupas e superfícies, utilizando, por exemplo, vaporizadores;

  • Não descartar pedaços de sabões e sabonetes;