O apocalipse plástico
O maior desafio que a humanidade terá de enfrentar nos próximos anos é a poluição ocasionada pelos descartes de plásticos nos oceanos e no meio…
Por Robson Correa

O maior desafio que a humanidade terá de enfrentar nos próximos anos é a poluição ocasionada pelos descartes de plásticos nos oceanos e no meio ambiente.
Atualmente, cerca de 12,7 toneladas de plástico descartados terminam desaguando nos mares, constituíndo 80% de todo o lixo dos oceanos, neste ritmo, estima-se que até o ano de 2050, o montante de plástico nos mares será maior, em massa, do que o peso de toda a fauna e flora, dos oceanos, reunidas.
Histórico
Inicialmente, a descoberta do plástico, foi considerada uma das grandes conquistas da ciência.
Simples de obter, moldável em qualquer forma, com baixo custo de produção em escala industrial, o plástico logo tomou de assalto o mundo, sendo utilizado em praticamente todo o produto manufaturado, seja em sua composição, ou seja como sua embalagem.
Aliás, no que diz respeito, justamente, à embalagem, o plástico logo se transformou no material padrão para embalar, ou transportar, qualquer produto.
Desta forma, a maioria do plástico que consumimos, é completamente descartável.
Partindo do princípio de que a técnica para a sua produção, a partir de petróleo e derivados, foi desenvolvida no ano de 1907, e de lá para cá, sua produção (e, consequentemente, posterior descarte), aumentou exponencialmente, é fácil perceber que o meio ambiente sofre com o acúmulo deste produto a mais de 100 anos (250 trilhões de toneladas).
E este problema, ocorre, justamente por causa de duas das maiores virtudes do produto: sua resistência, e sua durabilidade.
Decomposição do Plástico
O plástico é uma estrutura formada por moléculas conhecidas como polímeros, que são cadeias longas e repetitivas de moléculas menores.

As ligações entre estas cadeias de moléculas são muito estáveis, sendo, desta forma, muito difíceis de serem quebradas, pois para isto requer uma grande quantidade de energia, conferindo, assim, ao material uma grande resistência, o que dificulta muito a sua degradação natural.
Sem contar, que, por se tratar de um material relativamente moderno, microrganismos decompositores como bactérias e fungos, ainda não desenvolveram mecanismos naturais para degradar as moléculas do plástico, algo, que em escala evolucionária, irá requerer alguns milhares de anos.
Desta forma, o plástico possui um período muito longo de degradação, que varia de 200 até 800 anos (dependendo do material) , ou seja, muito provavelmente, pode o primeiro artefato de plástico fabricado, ainda ser encontrado incólume, em algum lugar do planeta.
Panorama
Nos dias de hoje, o lixo plástico vem contaminando, matando e deformando animais marinhos, invadindo ilhas e litorais, e, até FORMANDO ilhas inteiramente de detritos plásticos.

No Oceano pacífico, ilhas estão tendo suas praias completamente tomadas por detritos plásticos trazidos pelas marés, no Vietnã, diversos manguezais estão cobertos por lixo plástico, e no Caribe já se encontra um imenso mar de descartes plásticos a deriva no mar.
Isto sem contar as "ilhas de plástico", que são regiões situadas no encontro de correntes marítimas onde se acumulam os plásticos trazidos por estas. Só para se ter ideia, a ilha de plástico do Pacífico, situada entre o Havaí e a Califórnia, ocupa uma área no oceano cujas dimensões excedem o dobro da área de toda a França.

O impacto na fauna marinha é devastador, animais confundem pedaços de plástico com comida, e morrem, literalmente, de fome, com as barrigas cheias de plástico.
Outros morrem estrangulados ou asfixiados, alguns se emaranham na grande quantidade de detritos à deriva no mar e morrem, ironicamente, afogados.
Sem contar os que estão contaminados por altos níveis tóxicos devido a ingestão de poluentes absorvidos por micro-partículas de plástico presentes na cadeia alimentar.

Estima-se que a maior parte dos detritos plásticos que vai ao oceano não flutuam a superfície, ou seja, estes ou flutuam abaixo da superfície ou afundam até o leito oceânico, portanto, a grande e alarmante quantidade de plástico visível, encerra um panorama muito mais sombrio de volume de poluição.
Impactos
Atualmente, os impactos da poluição por plásticos no meio ambiente já são devastadores.
O lixo marinho causa perdas econômicas aos setores industriais da pesca, do turismo, da navegação e às comunidades dependentes do mar.
Sem contar que, apenas cerca de 5% do valor das embalagens plásticas permanecem na economia – o restante é literalmente descartado, o que demostra a necessidade de uma abordagem mais focada na reciclagem e na reutilização de materiais.
Os plásticos têm altos índices de absorção de poluentes e substâncias tóxicas e podem sofrer alteração com a exposição aos raios ultra violetas e a água salgada. Logo, qualquer tipo de animal marinho que se alimente desses materiais acabam contaminados.
A grande quantidade de poluentes plásticos já fez, atualmente, com que a composição da água do mar se alterasse. Amostras de água coletadas durante uma expedição chegaram a conter 1.000 partes de plástico para cada plâncton. Levando em conta que seis partes de plástico para cada plâncton já caracterizam um ambiente poluído, o que por si já demonstra a gravidade do problema que o planeta está enfrentando.
Ilhas de Plástico
Atualmente existem cinco gigantescos locais de acúmulo de plástico nos oceanos (mais duas formações menores nos polos), denominados "ilhas de plástico".

Na verdade, tratam-se de lixões oceânicos.
Estes locais, geralmente, são ponto de encontro de correntes oceânicas, que trazem os detritos de diversos pontos do planeta, e s acumulam nestes locais específicos.
A maior delas, a do Pacífico, é tão grande, que pode ser vista do espaço.

Micro-Partículas
Se, o plástico visível se constitui em um problema alarmante, problema maior, é o plástico "não visível".
Constituem-se em pedaços de plástico cujas dimensões vão até 5 mm. Estima-se que, atualmente, se encontrem nos oceanos, em torno de 5,5 trilhões de micro-partículas de plástico, que somadas, pesariam 270 mil toneladas de plástico.
Elas chegam aos oceanos de diversas maneiras:
Na lavagem das roupas: fibras sintéticas escoadas pelo esgoto;
No ar: as mesmas fibras sintéticas carregadas pelo vento, ou escoadas aos esgotos pelas chuvas;
No atrito dos pneus dos carros, escoadas aos esgotos pelas chuvas;
Tintas látex e acrílicas: que descascam das superfícies onde foram aplicadas e, na limpeza dos pincéis diretamente na rede de esgotos;
Nurdles e pellets: que são pequenos pedaços de plástico, utilizados na indústria;
Canudinhos plásticos;
Cotonetes;
Microesferas: utilizadas em produtos de higiene pessoal, como esfoliantes, pastas de dentes e xampus, escoadas pelo esgoto;
Glitter e purpurina: utilizados como adereços de carnaval e festas;
plásticos à deriva nos oceanos: devido aos choques e às marés, eles vão se fragmentando em pedaços cada vez menores.
As micro-partículas, se inserem na cadeia alimentar por baixo, plânctons (que são os menores animais da cadeia), as confundem com algas, e se alimentam delas, estes, servem de alimentos para crustáceos e pequenos peixes, e assim por diante, até chegar no consumidor final que é o ser-humano.
Estima-se que quem come frutos do mar regularmente, ingere cerca de 11 mil pedaços de micro-partícula por ano.

Plâncton com "glitter" verde em seu interior
O problema todo é que, as micro-partícula enquanto estão no meio-ambiente, estas absorvem poluentes orgânicos altamente nocivos (pesticidas e bisfenóis), que estão diretamente ligados a disfunções hormonais, imunológicas, neurológicas e reprodutivas.
Eles ficam durante muito tempo no ambiente e, uma vez ingeridos, têm a capacidade de se fixarem na gordura do corpo, no sangue e nos fluidos corporais de animais e humanos.
As micro-partículas também estão presentes no ar que respiramos, em alimentos como o sal ou a cerveja e até na água que bebemos: cerca de 83% da água de torneira do mundo inteiro está contaminada com micro-partícula (até na água engarrafada).
O que Fazer?
O primeiro passo é, diminuir o consumo de plástico:
Troque sua escova de dentes de plástico por uma de bambu;
Seu aparelho de barbear de plástico por um de metal;
Ao invés de usar roupas feitas de tecidos de fibra sintética, dê preferência as de algodão orgânico;
Ao comprar alimentos, cosméticos e produtos em geral, dê preferência àqueles que estejam em embalagens de vidro;
Dê uso para as embalagens plásticas;
Utilize garrafas não descartáveis para transportar sua água;
Abdique do consumo de itens de plástico supérfluos;
Despreze o uso de bolsas plásticas, cotonetes e canudos;
Pegue e dê caronas;
Abdique do consumo de produtos que contenham microesferas sintéticas;
Repense no que você pode fazer para reduzir o plástico presente no seu dia-a-dia;
Dê prioridade aos bioplásticos;
Faça a coleta seletiva e descarte corretamente;
Pressione empresas e governos para que garantam o retorno do plástico à cadeia de produção;
Fiscalize e pressione o seu parlamentar, para que este não proponha nem aprove leis que aumentem o consumo e plástico.
