Douglas Cazaroti
Química e ambiente7 min de leitura

A contaminação invisível do bisfenol

Na nossa vida moderna, eles estão presentes em todos os lugares, principalmente, sob a forma de embalagens para gêneros alimentícios e é justamente sob esta utilização, que eles se tornam mais prejudiciais à saúde dos…

Por Robson Correa

Vivemos na era do plástico!

Na nossa vida moderna, eles estão presentes em todos os lugares, principalmente, sob a forma de embalagens para gêneros alimentícios e é justamente sob esta utilização, que eles se tornam mais prejudiciais à saúde dos seres humanos.

O plástico, invariavelmente, reage com o meio ao seu redor, e esta reação acaba liberando alguns de seus elementos constituintes no alimento que este embala.

Estes elementos constituintes, contaminam o organismo humano, acarretando o surgimento de doenças, como problemas cardiovasculares e até mesmo o câncer.

O Bisfenol é o mais nocivo destes aditivos químicos, ele pode ser encontrado nos plásticos das garrafas de água, copos, mamadeiras, potes, filtros de água e diversos outros recipientes plásticos.

Além disso, ele também é encontrado na composição das tintas e resinas presentes em embalagens alimentícias, nos revestimentos internos das latas de alumínio e na composição dos papéis termo-sensíveis utilizados para extratos, comprovantes bancários, boletos e recibos de compras.

Trata-se de uma ameaça tão grave, que diversos organismos de saúde internacionais têm voltado suas atenções para este problema

A própria ANVISA, inclusive, já expediu diversas normatizações à respeito da produção e utilização, no território brasileiro, de produtos que contenham o bisfenol em sua composição.

Porém, o fato mais ameaçador deste problema, é o fato do bisfenol estar conjugado com outro gravíssimo problema de contaminação mundial: Os microplásticos!

(colocar link para o artigo dos plásticos nos oceanos)

O que é o bisfenol

É basicamente um tipo de molécula orgânica sintética, que é formadas pela ligação entre dois fenóis.

Já os fenóis, são moléculas orgânicas formadas pela ligação de uma ou mais hidroxilas diretamente a um anel aromático.

O bisfenol, é obtido, na natureza, à partir do processamento do carvão mineral e do xisto betuminoso em alcatrão e em hulha, extraindo-se o bisfenol diretamente dos óleos brutos destes compostos.

Ele é largamente utilizado na indústria, para a fabricação de plásticos e resinas.

Sua função na produção de plástico é diluir a viscosa resina de poliéster, à fim de facilitar sua laminação.

Existem, basicamente, oito tipos de bisfenol.

Tipos de bisfenol

Ele é encontrado em diversas versões: bisfenol A, bisfenol B, bisfenol AF, bisfenol C, bisfenol E, bisfenol AP, bisfenol F e o bisfenol S.

Entretanto, os mais utilizados em larga escala pela indústria, portanto, que estão mais presentes nos mais diversos materiais e produtos comercializados são: bisfenol A (BPA), bisfenol S (BPS) e o bisfenol F (BPF).

Muito embora sejam compostos diferentes, estas espécies de bisfenol são muito parecidas em termos químicos e nas suas propriedades físicas.

Na verdade, o que diferenciam estes três tipos de bisfenol são as suas formas de obtenção: o bisfenol A ;

Bisfenol A (C15H16O2)

É obtido pela condensação da acetona. O bisfenol A, é um dos compostos químicos mais produzidos em escala global, é utilizado na confecção de embalagens alimentares, garrafas de água, recipientes plásticos, recibos, latas de conserva, encanamentos de água, aparelhos médicos e dentários, produtos eletrônicos e está até na água armazenada em galões de policarbonato, e estas, são apenas algumas de suas muitas outras aplicações.

Após estudos comprovarem seus prejuízos para a saúde humana e ambiental, houve uma série de regulamentos restritivos em relação ao seu uso.

No Brasil, a Anvisa proibiu o uso de BPA em mamadeiras e restringiu a migração da substância de embalagens para alimentos a 0,6 mg/kg.

Bisfenol S (C12H10O4S) e Bisfenol F

O bisfenol S é obtido a partir da reação de fenol com ácido sulfúrico; e o bisfenol F é obtido pela reação de fenol com formaldeído.O BPS e o BPF estão presentes nos produtos de limpeza industrial, nos solventes, nos recibos de papel, nos revestimentos epóxi, nos plásticos, nos canos de água, nos selantes dentários, nas embalagens de alimentos dentre outros produtos de consumo cotidianos.

Após as restrições ao BPA, o mercado desenvolveu estes dois principais substitutos, o BPF e o BPS. O problema é que estes substitutos, que também são disruptores endócrinos, são tão prejudiciais à saúde humana e ao ambiente quanto o BPA.

Enquanto o BPA tem a sua utilização restrita por regulamentação legal, o BPF e o BPS (que produzem os mesmos efeitos nocivos) estão livres para serem largamente empregados.

Afinal, o que são disruptores endócrinos?

Substâncias que têm a capacidade de interferir no equilíbrio hormonal dos organismos vivos.

Nos animais, eles podem causar esterilização, problemas comportamentais, diminuição da população, entre outros.

Nos seres humanos, eles estão associados diretamente ao desenvolvimento de diabetes, síndrome dos ovários policísticos, deformações nos espermatozoides, esterilidade dentre outros distúrbios não citados.

No que diz respeito ao BPA, em específico, uma vez que foi a substância que sofreu mais pesquisas sobre seus efeitos nos organismos vivos, estudos apontaram que esta substância exerce uma influência direta sobre: casos de abortos espontâneos, anomalias e tumores do trato reprodutivo, câncer de mama e de próstata, deficit de atenção, de memória visual e motor, diabetes, diminuição da qualidade e quantidade de esperma em adultos, endometriose, fibromas uterinos, gestação ectópica (fora da cavidade uterina), hiperatividade, infertilidade, modificações do desenvolvimento de órgãos sexuais internos, obesidade, precocidade sexual, doenças cardíacas e síndrome dos ovários policísticos e pode desregular os hormônios da tireoide mesmo em doses baixas.

Como prevenir o consumo de bisfenol

Justamente por se tratar de um agente invisível, a prevenção do consumo do bisfenol é uma tarefa bastante difícil, tendo em vista que esta substância faz parte da composição de uma gama muito grande de produtos de uso e consumo diário.

Maior dificuldade aina, encontramos no que se refere às micro-partículas de plástico.

Estudos já comprovaram que boa parte da água apta para o consumo do planeta possui uma quantidade considerável destas partículas, assim como também, boa parte dos frutos do mar comercializados para o consumo humano, também possuem elevadas quantidades destas micro-partículas em seu interior.

As micro-partículas plásticas estão carregadas de bisfenol, e nelas, a liberação de bisfenol é bem maior e mais rápida, devido às suas pequenas dimensões.

(Para saber mais sobre micro-partículas de plástico, leia o nosso texto "O Apocalipse Plástico") (colocar o link no título)

Para minimizar a exposição diária ao bisfenol, deve-se evitar o consumo alimentar de produtos industrializados, uma vez que o bisfenol se encontra presente nas embalagens plásticas que envolvem os alimentos, e também participa da composição da resina utilizada para selar o interior das latas que acondicionam alimentos.

Se não for possível evitar alimentos industrializados, dê preferência àqueles que venham acondicionados em embalagens de vidro.

Mesma regra vale no que toca ao acondicionamento de alimentos em sua casa: dê preferência a potes de vidro, cerâmica e aço inoxidável.

Procure não aquecer (no micro-ondas ou em banho maria), alimentos em recipientes plásticos, assim como também, evitar congelá-los também nestes mesmo tipo de recipientes.

Descarte imediatamente os recipientes de plástico que estejam rachados ou quebrados, pois alterações na temperatura e na forma física do recipiente podem liberar mais facilmente o bisfenol.

Evite a impressão de recibos, comprovantes, boletos de papel e afins.

Descarte

Este, é outro ponto muito delicado.

Os dejetos contendo bisfenol, se forem descartados incorretamente, passam a liberar o bisfenol no ambiente, contaminando o solo cultivável, os lençóis freáticos e a atmosfera.

No que diz respeito à reciclagem, encontramos outro problema: pois, dependendo do que a reciclagem transformar este material com bisfenol, sua nova utilização, pode proporcionar impactos ainda maiores para a saúde humana, por exemplo: os papéis higiênicos reciclados a partir de papéis contendo bisfenol, podem gerar uma grave gera exposição ao organismo humano, uma vez que este entra em contato direto com mucosas sensíveis, carreando, desta forma, o bisfenol diretamente para a corrente sanguínea dos indivíduos que estiverem utilizando ente tipo de papel.

Neste sentido, o bisfenol é um dos maiores problemas sem solução da atualidade, tendo em vista que:

  1. Quanto a sua reciclagem, esta apenas devolve o bisfenol ao consumo cotidiano das pessoas e ao meio ambiente, aumentando as chances de exposição à substância;

  2. Quanto ao seu descarte sem reciclagem, este apenas aumenta o volume de dejetos poluentes nos aterros sanitários; e, já que para minimizar o risco desta substância poluir o meio externo, torna-se obrigatório o uso de plástico não reciclável para o seu acondicionamento, isto impacta um outro grave problema de poluição, que é justamente o uso de plásticos não biodegradáveis.

Chega-se a conclusão que a melhor solução para este grave problema é se abster completamente do consumo de produtos que utilizem o bisfenol em sua composição ou em suas embalagens, forçando assim, as industrias a abolirem este composto nas suas linhas de produção;; e, pressionar o Legislativo para impor leis intolerância ao uso deste composto pela indústria, assim como pressionar, também, os órgãos de fiscalização, para acompanharem o cumprimento desta restrição pelas indústrias.